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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Intensidade



Há dias em que estamos prestes a ferver. Fomos acordadas 3 vezes durante a noite, numa delas estávamos a ter um sonho maravilhoso, noutra, fomos acordadas porque "não encontro o Romeu" (o boneco), e na outra, para endireitar os lençóis..
Depois chega o dia e parece que há um cansaço que não se apaga, uma pausa que não chega. Estamos menos pacientes, mais relutantes em ceder, e menos criativas em encontrar soluções positivas.
Em consequência, é provável que nestes dias eles estejam prestes a detonar limites. Começo por controlar a voz, por tentar ser assertiva e agir no momento certo, mas a provocação persiste.

Nestes últimos dias, ao estar com eles full-on-all-day-non-stop, tenho a oportunidade de reconhecer, o valor das mulheres de antigamente, que criavam filhos enquanto trabalhavam, que eram mães, mulheres e tias, tudo em simultâneo. E também me leva a constatar, mais uma vez, a bênção que é poder te-los por perto. Porque durante os momentos de desafio, provocações e confronto, cai o véu da perfeição, e expõe os comportamentos e facetas que não se revelam à distância.

Vejo a imensidão dos desafios que tenho como pessoa e como mãe, tenho a oportunidade de observar a minha reação às situações de stress (não, não tenho levado muitas taças ultimamente..), que por vezes é tão diferente do que acreditamos estar certo quando temos a mente limpa. Por outro lado, nestes dias tenho visto de perto atitudes e comportamentos nos meus filhos, que gostaria de poder ajudar a direcionar num outro sentido. Coisas simples. Coisas que ainda existem na raiz ao ser criança. Mas que mais tarde poderão tomar formas, que lhes tornarão mais difícil a tarefa de Ser Homem. É muito mais fácil dar de comer à boca do Guilherme. Porque não suja, porque ele come, porque não se distrai. Mas ele já sabe comer com a sua mão, então porque estou a continuar a alimentar uma incapacidade motora que já foi conquistada? Porque é mais fácil. Porque não suja, porque ele come, porque não se distrai. E ele encosta-se e brinca e não mexe na colher. Num bebé, não quer dizer nada. Num adulto, quer dizer preguiça. São nas pequenas coisas que podemos atuar. Às vezes, muitas vezes, atuar quer dizer não fazer nada. Observar, aguardar, querer.

Por isso agradeço o confronto, agradeço as revelações. Amanhã vai ser melhor.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Bricolagem


Em volta de pregos, serras, tintas e madeiras, as nossas mãos têm andado muuuuito ocupadas. Eu tenho um forte fascínio pelo velho, pelo imenso poder criativo de transformar algo velho, em novo. Falta-me a mestria, o toque de experiência rumo à perfeição, mas sobra-me a vontade.
Nestes últimos dias, conseguimos a proeza de bricolar em grande harmonia. Sem pressas, com muitas paragens, muitos entretantos. Uma demão de verniz e amassar a pizza, manhã a bricolar, tarde a nadar. Os miúdos gravitam à minha volta enquanto trabalho e os mimos são alternados com hard work.

Desfiz a casa deles de madeira, que já não era usada para brincar, e planeio reutilizar cada pedaço de madeira. Para já, comecei com um canteiro de aromáticas. Fiquei tão, tão contente com ele. Temos mirtilos, oregãos, lúcia-lima, beldroegas, salsa, tomilho-limão, lavanda, morangueiros, e três catos diferentes!! Estou a torcer para que resistam ao Inverno..! Entretanto, finalmente revitalizei o triciclo vintage que me custou 7,5 € em segunda-mão. Um triciclo de ferro, resistente, como os de antes. Ah, ficou cor-de-rosa porque era o único spray colorido que havia em casa. A cadeira de bebé também foi outra compra em segunda-mão, mas estava com uma cores demasiado playground para o meu gosto pessoal. E a mesa desdobrável foi a primeira mesa de cozinha que os meus pais compraram ainda recém-casados (ninguém sabe como é que durou este tempo todo..), e eu resolvi limpar-lhe a ferrugem, e dar-lhe um ar mais orgânico com um tampo de madeira de verdade.

Trabalhar com crianças em redor, implica alguma paciência. Aquilo que levaria uma manhã de trabalho, converte-se em 5 dias. As tarefas fundem-se umas com as outras, e em vez de começar um projeto e levá-lo até ao fim, a ordem de trabalhos é estabelecida de acordo com as rotinas diárias de refeições-sono. Assim, é preciso estar muito presente no que está a acontecer, e saber reconhecer quando é hora de deixar algo inacabado, porque o almoço se aproxima. É engraçada a quantidade de vezes que as mãos passam por água, para limpar tinta, cheiro a refogado, poeira, molho de tomate, farinha, terra, decapante, etc, etc, etc.
Depois, há que ter em conta, que certas tarefas dificilmente darão resultado quando feitas com eles (como pintar a cadeira de branco), pelo que só podemos fazê-las quando estão a dormir. E outras, não podem ser feitas durante as horas de sono (como usar a serra elétrica).
No final, vale a pena.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Leituras de Junho


Da esquerda para a direita e de cima para baixo:

O Filho das Sombras, Juliet Marillier.
Bom, está na altura de confessar uma paixão voraz que eu tenho: livros de fantasia. Sim, sim, esses mesmo que fazem as alegrias das adolescentes. Cuja intriga gira à volta de um romance, no qual a protagonista é quase sempre uma mulher (ou jovem) com um poder sobrenatural invulgar, que se envolve numa demanda com tons de epopeia. Perto dos 30 anos voltei a dar uma hipótese a este género que me prendia na adolescência, e descobri que algures, ele preenche um tímido desejo de romance. O Filho das Sombras é para mim o melhor da primeira triologia, eu já o tinha lido, mas voltei a rever. Adoro.

Quinta Animada.
Este foi o primeiro livro que eu comprei para o Gabriel, e por acaso, também foi a primeira história contínua que tenho contado ao Guilherme. Apesar de as cores serem um pouco fortes para o meu gosto pessoal, os desenhos são bonitos, a história é muito simples, envolve repetição, e animais, que é um tema muito próprio para a primeira infância.

O meu primeiro As Mil e Uma Noites
Ultimamente tenho comprado muitos livros na internet em segunda mão. Alguns são boas surpresas, outros nem por isso. Este foi uma excelente surpresa. Os desenhos são lindos e cheios de contrastes, a paleta de cores, assim como o traço são cheios de personalidade, e a história é um conto tradicional das arábias, a do Pássaro da Verdade. Sugiro a partir dos 5 anos, talvez até mais.

Histórias para adormecer
Este livro de meados de 80, de folha rija, é talvez o preferido da minha infância. Tem várias histórias que acompanham as estações do ano de forma ilustrativa, e não concetual ou explicativa (pontos extra!). Tem desenhos graciosos, suaves e ternurentos e recria situações da vida na aldeia.

A vida no coração da Floresta
Outra boa surpresa que o carteiro nos trouxe. A vida no coração da Floresta conta a história da simpática e castiça família dos anões Tartolim. Está dividido por estações e por meses e em cada mês, estes pequenos envolvem-se em aventuras pelo bosque, e lidam com bruxas, fadas e todas as criaturas que habitam a floresta.

Awakening to Child Health
Uma descrição explicativa e elaborada do desenvolvimento da criança sob uma perspetiva médica, segundo a Antroposofia. É feita uma síntese detalhada do desenvolvimento da criança, desde o período pré-natal, passando pelos primeiros três anos, o primeiro seténio, a mudança dos dentes até a puberdade, e desde a puberdade até a adultícia. Foca temas como o desenvolvimento embriológico, a vida e consciência no útero, as diferenças quanto à experiência do parto, imitação, relação entre movimento e o desenvolvimento do discurso, ritmo e repetição, os sete processos da vida, as funções rítmicas, respiratórias, metabólicas e neuro-sensoriais, os quatro temperamentos, entre muitos outros temas.
"Children are the life substance of our humanity, a healing power that is desperately needed to balance the life-destroying materialism of our age."

Os seis magníficos
Uma história recolhida pelos irmãos Grimm, através de desenhos muito intrincados e um discurso elaborado, que eu penso que estejam adequados a crianças de 7, 8 anos. E por isso tem sido um treino à minha capacidade de leitura, síntese e memorização. Como não tinha muitas alternativas cá por casa, tenho-o lido ao mesmo tempo que o descodifico e resumo, na minha cabeça. Ou seja, estou a ler e a resumir ao mesmo tempo que memorizo para o dia seguinte. Na leitura de livros para crianças, é ideal que o tom, as pausas e as palavras sejam sempre as mesmas de dia para dia, na tentativa de fazermos o mínimo de alterações possível. Eles estão ativamente atentos ao que escutam, e se nos enganamos, são os primeiros a corrigir.

sábado, 30 de maio de 2015

Brincadeiras para a Primavera

Reuni este conjunto de ideias de brincadeiras para a Primavera, que nos têm mantido muuuuito entretidos. São coisas muito simples de fazer ou preparar, gosto de atividades que precisem de pouca preparação prévia, e de brincadeiras que não impliquem a compra de nada novo. Se der para reutilizar, dar uma nova utilidade a qualquer coisa, melhor. Penso que a Primavera é a estação ideal para explorar a natureza, não chove, e não está demasiado calor. É um convite aberto a estes pequenos exploradores. E lá fora, há de tudo!

1. Sopa de Flores e Bolinhos de Lama


Este não precisa de explicações, acho que todos brincámos a isto quando éramos pequenos. Quanto mais diversidade de elementos e texturas naturais, melhor. Tesouras e facas de manteiga são boas ideias para eles irem treinando a motricidade fina. Ah, e o elemento chave: água!

2. Barquinhos de Papel


É uma boa ideia quando se tem água perto. Eles sopram os barcos, ou empurram-nos com canas e fazem-se corridas de obstáculos. Ah, também dá na banheira.

3. Tipi ou uma tenda improvisada


Lembram-se em crianças, da magia que envolvia ter um abrigo, um refúgio improvisado, normalmente de teto baixo, e com panos a tapar? Eu lembro-me dessa brincadeira e lembro-me da sensação.. de proteção.
O tipi faz-se em 20 minutos: 5 ou mais paus compridos, atam-se numa extremidade uns aos outros, e na outra extremidade enterram-se na terra. Depois é só embrulhar um lençol à volta e prender com alfinetes na "porta". Temos feito muitos piqueniques aqui.

4. Terrarium


As crianças têm muita vontade de levar a natureza para casa. Quem é que não teve grilos, caracóis, bichos da seda em casa? Fizemos uma "casinha" para o nosso amigo, e eu garanti que a "porta" ficasse aberta para ele poder voltar à terra quando quisesse.

5. Colares de flores


Uma boa introdução à costura. Gostei de ver o ar de concentração na cara dele.

6. Plantar e transplantar



Isto é quase um must do da Primavera. Deixá-los tocar na terra, plantar algo, regar, e ver a vida a crescer todos os dias um pouco mais, quando se chega da escola.

7. Mandalas de flores


Esta atividade é um bom pretexto para um passeio na natureza, com um cestinho e uma tesoura. Vale trazer tudo, e depois brinca-se com os padrões e as cores.

Bom, bom, as melhores brincadeiras são aquelas que prevalecem através dos tempos. São aquelas que fazem com que uma velhota de 80 anos reconheça o que o seu bisneto está a brincar. No fundo, é só nos lembrar-mos do que gostávamos de brincar quando éramos pequenos, e de certeza que ainda vamos gostar de brincar a isso com eles.

Já agora, alguém se lembra de esmigalhar pedra de tijolo vermelha, para fazer chocolate em pó para os bolinhos? Um must da culinária natural!

beijo, e muita luz,
Maria

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Jumping Sessions


Como é que eu não me lembrei disto durante o Inverno?
Eles sobem pela cadeira de comer, e saltam em direção ao colchão. Outras vezes vão buscar bancos para fazer escadinha. Lá em cima é a casa ou castelo, depende dos dias.
Sobem e descem, sobem e descem, e sobem e descem....

Divirtam-se,
Maria

sábado, 16 de maio de 2015

Planear o fim de semana com as crianças



A chegada do segundo filho muitas vezes leva a uma perda de território dos pais em relação aos filhos. As crianças estão em igual número aos adultos, e isso pode levar a que os pais sintam que perderam autoridade ou que tenham que se esforçar mais para que as coisas se reequilibrem novamente.

No meu caso, éramos um equilibrado mano a mano, e quando o Guilherme nasceu, perdi totalmente o controlo do território. Digamos que fui invadida, e que tive que esperar que as tropas se reestabelecessem para equilibrar o poder. Para evocar uma imagem ilustrativa, poderia lembrar que é difícil conseguir que uma criança enciumada de 3 anos, faça o que nós pedimos, enquanto tentamos silenciosa e calmamente, dar de mamar a um recém-nascido.

Naturalmente, existe um reajuste e as coisas voltam a fluir com harmonia. Mas posso dizer sem nenhuma dúvida que o planeamento foi o meu melhor aliado. A forma como consegui compensar o fato de ter dois braços para alimentar e cuidar de três pessoas, foi planear o dia-a-dia com antecedência. Foi surgindo naturalmente, e a dada altura, saber que tinha o indispensável preparado, e que a roda poderia continuar a girar mesmo que eu parasse, enchia-me de segurança.

O hábito ficou, e ainda hoje eu planeio o fim-de-semana (seja de 2 ou mais dias) com antecedência. Assim, para aqueles pais que estão a solo com os pequenos, aqui vão alguns conselhos úteis:

– Preparem as refeições com antecedência. 
Quando surge uma birra inesperada, ou um pequeno acidente que requer curativo, saber que o jantar está pronto é um alívio enorme.
Ao longo dos tempos fui mudando os momentos em que preparava as refeições com antecedência, por exemplo agora, à 6ª preparo o jantar para 2 refeições, ou seja durante o sábado de manhã vamos passear, brincar, explorar, e eu sei, que quando voltarmos, cansados e com sono, é só aquecer o almoço. Quando eles estão a dormir a sesta, eu preparo o jantar desse dia e consequente almoço do dia seguinte.

– Usem os tempos de sesta.
Para que o tempo de sesta exista, é preciso, em primeiro lugar, que os momentos de sesta de duas ou mais crianças estejam em sincronia. Sendo muito variável, eu diria que, após os 6 meses iniciais podemos tentar e esperar que eles durmam ao mesmo tempo.
Eu gostava de frisar que este tempo de sesta das crianças, para quem está by yourself, é o momento de expiração do dia, é um momento de pausa, de silêncio, em que nos ouvimos só a nós mesmos. É o momento de recarregar baterias.
Este momento pode ser usado para: dormir, descansar, meditar, ler, adiantar tarefas, preparar atividades, etc.

– Pensem em coisas que podem/querem fazer com os miúdos durante o fim de semana.
Isto é uma espécie de ode à celebração. Vamos celebrar que é fim de semana, vamos celebrar que estamos juntos, vamos celebrar o agora. Não tem que ser uma atividade pomposa que exija muita premeditação e preparação prévias, na verdade, as que eles mais se entregam até são as mais simples (pelo menos nesta primeira infância).
Se está sol: vamos apanhar flores, folhas ou pedras, explorar o bosque, apanhar amoras, brincar no parque, etc.
Se está a chover: vamos chapinhar, fazer corridas de triciclo dentro de casa, trazer o colchão para a sala e saltar de alturas diferentes, fazer desenhos, pinturas, modelagem, fazer biscoitos, etc.

– Mantenham um ritmo.
Normalmente, o ritmo da escola. Se eles almoçam às 12h na escola, o mais certo é que às 13h não vão visitar a tia Gertrudes. Mantenham uma rotina, ainda que seja ligeiramente diferente da da escola. A rotina deve seguir o movimento de respiração, dentro-fora, inspirar-expirar, contração-expansão. Acordar, pequeno-almoço, passear ou brincar livre, almoçar, sesta, lanchar, passear ou brincar ou atividade guiada, jantar, higiene e cama. Atenção, para os pais cansados, as rotinas permitem ao adulto tirar o maior proveito do dia e, saber quando pode descansar e relaxar, e quando tem que estar on.

– Integrem as crianças nas tarefas.
Mais importante do que entretê-las, é que eles nutram um genuíno amor pelo trabalho. Se deitarmos a eficácia, o sentido de perfeição e os timings, pela janela fora, podemos divertimos-nos enquanto fazemos algo útil.

– Descansem.
Há uma tendência nossa para adiar a hora de dormir, não vale a pena. Aprendi à minha custa que o dia vai correr muito, mas muito melhor, se eu for para a cama cedo. Se forem dois adultos, podem alternar entre quem vai ficar a aquecer a cama mais tempo de manhã, já que, geralmente, as crianças acordam com as galinhas e o sol.

Bom fim de semana para todos!
Maria

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Jardim Lã Terna


Há alguns anos, conheci a Teresa, vivíamos em Sintra e eu precisava de alguém que tomasse conta do Gabriel, ainda com 6 meses. Lembro-me do meu olhar maravilhado quando entrei na casa da Teresa, aonde ela recebia os meninos na altura, brinquedos de madeira, nada de plástico, nada de químicos, nada de falso. Educação em verdade. Lembro-me de subir as escadas e ouvir as canções, e de encontrar a Teresa sempre com algum bebé envolto em panos coloridos, bem pertinho do coração. Lembro-me dos dias de pão, e dos dias de panquecas.

A Teresa abriu um espaço novo, chama-se Jardim Lã Terna, fica em Gouveia (os contatos estão na primeira fotografia). Tem muito espaço, luz, verde, e amor. Também tem a boa ajuda da Joana, que se juntou à aventura, e a ajuda ocasional de mães, amigas e avós que chegam para dar uma mão, amassar a pizza, descascar ovos, enrolar a lã e coser bonecos. Este é um jardim, onde se vive a pedagogia waldorf, onde as crianças vivem em ritmos brandos que nutrem todo um ser em evolução. Sem pressa para crescer.

Se viverem por Sintra, liguem à Teresa, façam-lhe uma visita, levem os vossos filhos e vejam como eles se sentem. As portas estão abertas para receberem pais e filhos.

Luz,
Maria

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Menu de pequeno-almoço Primavera/Verão


O pequeno-almoço sempre foi a minha refeição preferida, de tal maneira que eu prefiro acordar cedo e comer devagar do que trincar algo pelo caminho para me estender mais um pouco na cama. Desde o primeiro ano do Gabriel que eu faço menus de pequeno-almoços, consoante a estação (todos temos direito aos nosso fetiches..!). No Inverno a ideia é aquecer, por isso abundam as papas e o leite quente, as torradas, o chá, a fruta cozida.. Para a época do calor, apetecem coisas que se trinquem, fruta fresca, iogurte..
A ideia é que haja um molde definido para cada dia, mas que nunca chega a ser igual, porque variam sempre a fruta, os toppings, os molhos, os condimentos, etc. Nas escolas Waldorf, a cada dia da semana corresponde um cereal, por exemplo à 2ª os miúdos comem arroz, à 4ª millet, etc, eu tento seguir mais ou menos a sequência dos cereais, mas altero um pouco consoante o tipo de comida. É engraçado que a repetição produz mesmo neles uma sensação de confiança, de segurança, e é muito mais fácil compreender o ritmo da semana e das estações, quando têm vivências do quotidiano que suportam essas mudanças. Por exemplo, no dia de karate come-se pão com molho, no dia antes do fim-de-semana, come-se papa de aveia. O Gabriel compreende o que vem a seguir, porque existe uma repetição que o permite seguir o ritmo semanal por ele próprio.

Confesso que já estava com muita vontade avançar com os pequenos-almoços do Verão, por isso aqui vai o nosso menu da estação:

Domingo – panquecas e chá, normalmente acompanhadas com molho de levedura e doce.
2ª feira – arroz de leite, que é mais ou menos o arroz doce, mas com bem menos açúcar, com fruta cozida misturada e com especiarias, canela, pimenta, cardamomo, anis, e cravinho.
3ª feira – homemade pão ou bagels e chá.
4ª feira – camadas de homemade iogurte ou leite, homemade granola e fruta fresca.
5ª feira – pão da padaria, sumo ou batido e molho de ovo, salsa, azeite e alho.
6ª feira – camadas de papa de aveia, puré de fruta crua, homemade iogurte, e homemade granola.
Sábado – quadrados de milho, que são uma espécie de bolo de milho, mas sem açúcar, e batido ou sumo de fruta.

Enjoy,
Maria




domingo, 3 de maio de 2015

As Maias.. num outro Maio



Em tempos idos era costume celebrar-se no 1º de Maio a Festa das Maias.
As Maias estavam associadas aos ritos pagãos e à celebração da fertilidade, já que a terra, mostrava-se agora em todo o seu esplendor de fertilidade. Em Portugal, era costume enfeitarem-se as portas com giestas amarelas, em coroas ou ramos, representando as flores do mês de Maio.
Mais para o norte da Europa, celebra-se o Mayday, construía-se um maypole, e faziam-se danças de roda em torno de um tronco enfeitado de fitas coloridas e flores.
Em tempos ainda mais remotos, lá para os lados dos celtas, celebrava-se Beltane, em danças entusiásticas que reproduziam na dança, a fertilidade que rompia da terra.

E como aqui para estes lados, os campos abundam de giestas amarelas e brancas, planeei com todo o cuidado, uma visita ao bosque: entraríamos por entre os tufos de erva comprida, colhíamos as flores, guardaríamos numa cesta, poderíamos brincar aos castelos atrás dos grandes blocos de granito. Depois da sesta, em casa, iríamos entrelaçar as flores em coroas de flores, faríamos ramos e enfeitaríamos a porta de casa, as nossas cabeças, o carro, a rua, enfim, até as flores terminarem.

E depois, choveu.
E choveu.
E o meu plano escorreu com a chuva, e durante uns bons momentos custou-me a aceitar que já não íamos fazer o que tinha pensado. Às vezes custa libertar-nos das nossas ideias, largar o planeado, aceitar o inesperado.

No dia anterior estava a ler uma entrevista ao Sr. Malaguzzi — o percursor da abordagem pedagógica reggio emilia — que dizia assim, "à medida que optamos por trabalhar com crianças, podemos dizer que elas são os melhores avaliadores e os juízes mais sensíveis dos valores e da utilidade da criatividade. Isso ocorre porque elas possuem o privilégio de não estarem excessivamente vinculadas às suas próprias ideias, que constroem e reinventam continuamente. Elas estão aptas a explorar, fazer descobertas, mudar os seus pontos de vista e apaixonar-se por formas e significados que se transformam."

Por outras palavras, as crianças criam, mas não estão presas ao que criam, têm ideias, mas não estão comprometidas com as suas ideias. Nós adultos, estamos. E quem trabalha ou convive de forma contínua com crianças, sabe que qualquer coisa que seja feita com e para as crianças nunca é um bloco estático, é algo fluído e em transformação.

Por isso querida mamã, está a chover, e vamos ficar em casa. E sim, provavelmente vamos fazer birras, quase de certeza que vamos precisar muito da tua atenção e disponibilidade, e garantidamente, vamos reinventar a nossa sala. E talvez a cozinha também. Ah, e já agora, o chão da sala vai ganhar uma nova coloração.

E sim, a liberdade aprende-se, a par dos seus limites. E ser criança é experimentar e correr e sujar e querer e aprender e tantas outras coisas. E ser mãe é aprender a aceitar (entre outras coisas..).

amor,
Maria

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Fada do Dente chegou!


"Mamã o meu dente está a abanar!" "Já??". Existem momentos que são marcos na vida deles, e na nossa, enquanto mães. Este é um deles.

Antigamente, segundo as minhas avós e outras tantas senhoras da mesma geração, os bebés nasciam com os olhos fechados e durante várias semanas, assim permaneciam. A troca dos dentes ocorria por volta dos 6, 7 anos. Mas as nossas crianças, as deste tempo, recebem estímulos diferentes, não recebem? A alimentação é diferente, tudo relacionado com a primeiríssima infância também é muito diferente, mesmo o período de gestação é diferente, os sons são diferentes. Talvez esteja relacionado com a diversidade e quantidade de estímulos a que são sujeitos, talvez (quase de certeza) existam muitas outras razões que vivem além do olhar comum, mas é verdade que estas crianças, acordam mais cedo. Emancipam-se, expõem-em-se, crescem e pensam, mais cedo.

Para a pedagogia Waldorf, a troca dos dentes é um marco muito importante no crescimento do indivíduo. Existe uma relação óbvia entre a idade de entrada para a escola, momento de aprendizagem académica, e a idade em que ocorre a troca dos dentes. "Este é o primeiro sinal de que a criança está pronta para a escola, uma vez que agora dispõe das faculdades que irá precisar para o pensamento e a memória intelectuais" (Dr. Raoul Goldberg, Awakening to child health). Depois de nascer, a criança molda e transforma o seu corpo herdado, substituindo as células originais, por "um corpo a que pode chamar seu, que é o adequado para a sua posterior viagem de vida" (Dr. Raoul Goldberg). Assim, o primeiro dente de leite simboliza a concretização desta transformação, e na pedagogia Waldorf, é visto como um novo nascimento. Nasce o corpo etérico, libertando finalmente, as forças de vida formativas para se ocuparem de atividades relacionadas com memória, pensamento intelectual, raciocínio mental.

Curioso que o segundo nascimento do Gabriel tenha sido no dia de anos do irmão. Brotherhood. E envolveu coragem, o dente estava mesmo na queda final, já com sangue à mistura, o tio Valter ofereceu a sua larga experiência nesta área (a de arrancar dentes), e apesar de inicialmente relutante, o Gabriel confiou e entregou-se. E o dente saltou. E tivemos uma outra celebração.
A felicidade dele era tão grande, como se algo de espetacular e mágico lhe tivesse acontecido! E aconteceu. O dente foi religiosamente guardado debaixo da almofada, o Gabriel insistiu em deixar uma bolachinha de chocolate para o caso da Fada do Dente estar com fome pela viagem (e estava!), e felizmente a Fada do Dente tinha um livro novo guardado para um momento oportuno (Praise the Lord!).
E assim, acordei de manhã, com uma descrição completa de como a Fada do Dente tinha chegado e o momento de convívio entre eles, conversaram claro, o Gabriel ainda a ajudou a encontrar o dente.
O meu coração derrete-se com estes momentos..

Paz,
Maria


sábado, 18 de abril de 2015

Brincar trabalhando


 





Para as crianças, existem "trabalhos" que são muito mais divertidos do que brinquedos. Há muitas tarefas do nosso quotidiano de adultos, que podendo ser feitas com as crianças, são verdadeiras experiências de prazer. Digo prazer, para eles e para nós. Para nós crescidos, porque se a uma tarefa aborrecida como lavar o carro, for acrescentada uma boa dose de tempo, disponibilidade, e paciência, esta poderá se tornar numa alegre manhã em família. Para eles, porque nunca ouvi nenhum adulto dizer que gosta de lavar o carro, mas o Gabriel diz-me com a maior satisfação que "adorou".

Começar desde pequenos a fazer connosco pequenas tarefas tem múltiplas vantagens para todos: 
— eles começam desde cedo a aprender a fazer qualquer coisa, a ganhar autonomia de movimento e vontade; 
— estamos todos juntos como família, a participar numa ação comum, isso une os laços;
— eles divertem-se, e atenção, não deve ser esperado que eles comecem e terminem a tarefa connosco, ou seja, quanto mais nova é a criança, mais movimento vive nela, assim, também o interesse e a concentração, oscilam nela como o vento. O adulto começa a tarefa, a criança participa um pouco em algo que para ela é como uma brincadeira, depois passa um passarinho verde e ela logo desvia a sua atenção, para depois passado algum tempo, voltar a querer ajudar. Quanto mais velha é a criança, mais ela de concentra e entrega ao que está a ser feito;
— através de tarefas sem aparentemente nenhuma importância pedagógica, as crianças desenvolvem, por exemplo, através do manuseamento tátil, a coordenação motora, a motricidade fina, desenvolvem a precisão, experimentam diferentes sensações táteis, húmidos, secos, superfícies com rugosidades distintas, etc. Tudo isto não vem num brinquedo da loja, pois não?
— quando elas vão brincar, damos conta que estão a brincar, a imitar o que estávamos a fazer. Assim, também lhes estamos a fornecer material de inspiração para as brincadeiras, por que eles brincam a imitar o mundo dos adultos (à sua maneira, claro!).

até já,
Maria
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